Nos últimos dias, grupos de imigrantes venezuelanos têm aumentado o assédio público a funcionários do chavismo no exterior, que se tornaram alvo de insultos e vaias, logo após terem sido localizados por seus opositores através das redes sociais. O alvo dos ataques no exterior são as pessoas que estiveram ou estão vinculadas ao governo, assim como seus familiares, a quem os opositores acusam de desfrutar de uma riqueza supostamente oriunda de meios ilícitos, enquanto o país atravessa uma severa crise econômica e política.
No domingo passado, em uma padaria de Miami, no estado americano da Flórida, o ex-ministro venezuelano, Eugenio Vásquez, e seu parceiro foram vaiados até que foram forçados a sair do local. Na semana passada houve um episódio semelhante em Madrid, contra a ex-ministra Maripili Hernandez, e no início deste mês em Sydney, Austrália, contra a filha de Jorge Rodríguez, um dos principais líderes do chavismo.
Os protestos contra o presidente Nicolás Maduro, que se iniciaram em primeiro de abril e duram até o momento, já deixaram 43 mortos e centenas de feridos e detidos, tem desencadeado o que o mandatário qualificou como uma “escalada fascista”.
ULTRAPASSA OS LIMITES
— O assédio já ultrapassa os limites, porque já estão começando a fazer justiça com as próprias mãos — disse o professor de ciências políticas da Universidade Internacional da Flórida, Eduardo Gamarra. — Se não violaram lei alguma nos Estados Unidos e estão aqui legalmente, eles têm todo o direito de estarem onde quiserem. Intimidá-los e fazer represálias são formas de assédio, que podem estar sujeitos a sanções legais — acrescentou o professor.
O analista venezuelano Luis Vicente León concordou com Gamarra e chegou a publicar em suas redes sociais uma mensagem contra as ofensas: “Não se defende direitos violando os direitos do violador. A luta que se mostrou eficiente em todos os processos relevantes da transição da autocracia para a democracia no mundo é uma luta pacífica e massiva”, escreveu.
Porém, opositores mais radicais descartam essa postura.
— Não é tolerável que essas pessoas, depois de terem destruído o pais, depois de terem sido os responsáveis do caos que a Venezuela está vivendo, busquem a absolvição — ressaltou José Colina, ex-tenente do exército que fundou e dirige organização Venezuelanos Perseguidos Políticos no Exílio (Veppex), em Miami.
NÃO EXISTE JUSTIÇA
Colina defende a ideia de envergonhar publicamente os chavistas no exterior, embora reconheça o perigo de que essas ações podem representar vinganças pessoais:
— Na Venezuela não existe justiça. As vítimas têm que fazer justiça através de seus próprios meios, e esses atos de repúdio são parte deles — comentou o ex-tenente, que defende a saída de Maduro.
O fenômeno não é novo, embora sua visibilidade tenha crescido nos últimos dias, em paralelo com a intensificação das manifestações na Venezuela. O próprio Colina elabora listas com nomes de funcionários ou ex-funcionários de Chávez, que têm propriedades em Miami há vários anos, e organiza plantões em frente as suas casas ou empresas. Em maio do ano passado, vinte venezuelanos protestaram em frente a um apartamento em Miami, onde o advogado Hermann Escarrá passava férias.
Entretanto, o parlamentar opositor Freddy Guevara, vice-presidente do parlamento, reiterou que não é correto moral e nem politicamente moral assediar filhos de funcionários.
— Somos os novos judeus do século XXI. Não carregamos a estrela amarela de Davi, carregamos o coração vermelho de vontade de lutar e brigar pela dignidade humana, e vamos derrotas os nazistas do século XXI — disse Maduro, na noite de terça-feira.

