SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O aplicativo Zoom informou nesta quarta-feira (10) que bloqueou temporariamente uma conta americana de ativistas que organizaram uma reunião virtual em memória das vítimas da repressão do regime chinês na praça da Paz Celestial. O ato abre suspeitas sobre a liberdade de expressão no serviço de videoconferência amplamente utilizado durante a pandemia do novo coronavírus. Ativistas do grupo Humanitarian China, com sede nos Estados Unidos, utilizaram o Zoom para conectar mais de 250 pessoas e recordar o massacre de Pequim de 4 de junho de 1989, quando tropas chinesas abriram fogo contra estudantes e ativistas que protestavam pela democracia. Zhou Fengsuo, cofundador do grupo e número 1 na lista de mais procurados de Pequim após a repressão na praça da Paz Celestial, disse à agência de notícias AFP que a conta no aplicativo foi reativada nesta quarta, embora a plataforma não tenha informado o motivo da suspensão. "Como qualquer empresa global, devemos cumprir as leis aplicáveis nas jurisdições em que operamos", disse um porta-voz do Zoom. Ao realizar uma reunião com origem em vários países, "os participantes dentro desses países devem cumprir suas respectivas leis locais". "Nosso objetivo é limitar as ações que tomamos às necessárias para cumprir a lei local, e revisar e melhorar continuamente nosso processo nessas questões", acrescentou o representante da empresa. O Humanitarian China disse que o evento, realizado no último dia 31, contou com a participação de mais de 250 pessoas em todo o mundo, enquanto mais de 4.000 o transmitiram nas mídias sociais, muitas das quais eram da China. O aniversário da sangrenta repressão chinesa aos protestos pró-democracia na praça da Paz Celestial é, entretanto, um assunto altamente sensível na China, e o conteúdo relacionado ao acontecimento é regularmente bloqueado ou censurado pelas autoridades. Ativistas acusam a plataforma de videoconferência de estar sob pressão direta dos líderes comunistas da China. "Nesse caso, o Zoom é cúmplice em apagar as memórias do massacre da praça da Paz Celestial em colaboração com um governo autoritário", indica um comunicado do Humanitarian China. Neste ano, autoridades de Hong Kong, cujos habitantes dispõem de liberdades individuais não vistas na China continental, proibiram a tradicional vigília em memória das vítimas do massacre citando o risco de propagação do novo coronavírus. Ativistas denunciaram que houve motivações políticas por trás da proibição, já que a polícia tem utilizado os mesmos argumentos sobre o distanciamento social para limitar manifestações pró-democracia. Os organizadores, no entanto, desafiaram o impedimento e fizeram manifestações em Victoria Park, onde, tradicionalmente, é realizada a vigília, na Universidade de Hong Kong, em que uma escultura chamada Pilar da Vergonha celebra a memória das vítimas, e em outros pontos da ex-colônia britânica. Se antes da quarentena o Zoom tinha cerca de 10 milhões de participações em reuniões por dia, hoje são mais de 300 milhões, mesmo com as ameaças de ataques virtuais que colocaram em risco a privacidade dos usuários. A fortuna de seu fundador, Eric Yuan, acompanhou a escalada de acessos. Aos 49 anos e com quase metade deles vividos nos Estados Unidos, o chinês viu seu patrimônio chegar a US$ 7,8 bilhões (quase R$ 45 bilhões) em 2020 -ganhando US$ 4 bilhões (R$ 22 bilhões) somente nos três primeiros meses do ano. Em dois meses, as ações do Zoom subiram 50% -enquanto as bolsas derretiam em meio à crise. A empresa, que valia US$ 29 bilhões (R$ 159 bilhões) antes da pandemia, passou a ser cotada em US$ 44 bilhões (R$ 241 bilhões).
