MUITO PRAZER!
“Para muitos é mais fácil suportar o outro do que a si próprio” (Schopenhauer)
“Perante os outros, somos um personagem que representa um papel a fim de nos adequarmos socialmente”.
“Quando penso, não sou apenas um, mas dois-em-um, porque o pensamento é um diálogo interior e silencioso, em que o eu se
“Começo a conhecer-me. Não existo. Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou metade desse intervalo, porque também há vida… Sou isso, enfim… Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo. É um universo barato”. - Fernando Pessoa -
Você já conhece o seu “eu” ? São íntimos?
Imagino que você conseguiu ler esse texto até seu final sem perder a concentração. Parabéns. Você já pode fazer companhia para você mesmo.
A solidão, como vimos no artigo anterior, é uma palavra com muitos sentidos e pode provocar diferentes reações, dependendo do sujeito e do momento em que é experimentada. Nele, abordamos a solidão decorrente da indiferença e do abandono, real ou afetivo, que pode causar transtornos de ansiedade e pânico nas pessoas.
Hoje, a abordagem é outra, voltada para a solidão voluntária , desejada e procurada, sem as características típicas de tristeza, medo e ansiedade. Trata-se de uma solidão que não significa estar só, mas “estar em si”, estar na companhia do “eu”.
Em vez de uma situação dolorosa e indesejada, um isolamento físico e emocional, vamos abordar uma experiência que desafia a capacidade de estar sozinho de maneira positiva, voluntária e construtiva para o próprio desenvolvimento pessoal. Um encontro entre dois “eus”.
Carl Jung resume esse evento na frase “Quando penso, não sou apenas um, mas dois-em-um, porque o pensamento é um diálogo interior e silencioso, em que o eu se desdobra e conversa consigo mesmo”.
Trata-se de colocar a vida no “modo pausar”, afastar-se das multidões, fazer um “retiro social” para dedicar-se a um encontro consigo mesmo. É a hora do silêncio exterior para iniciar diálogos interiores. E a palavra da moda para isso é solicitude, que se refere ao estado voluntário e positivo de estar sozinho, escolhido conscientemente para fins de introspecção, autoconhecimento, tranquilidade e desenvolvimento pessoal. É a capacidade de aproveitar a própria companhia, sem sentir a ausência de outras pessoas como um fardo.
No poema “Ausência”, Carlos Drummond de Andrade manifesta esse sentimento referente ao “estado de solitude”, ao “estar consigo mesmo”:
“Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim”.
Paul Tillich, teólogo e filósofo alemão, é com frequência citado por definir a “solitude” como a “glória de se estar sozinho”, alterando o sentido melancólico tradicional da palavra solidão. Para ele, é um isolamento voluntário para entrar em contato com o próprio interior.
O melhor exemplo dessa atitude de estar sozinho na companhia de seu “eu” pode ser retirado das experiências de Jesus, o qual mediante orações constantes, sempre sozinho, nas montanhas, no meio do mar, numa praia deserta, aperfeiçoou a consciência de sua divindade, de sua missão e intimidade com o Pai. A chamada “oração da hora” ou “oração sacerdotal”, no capítulo 17 do Evangelista João, bem assim em Lucas, 22-44, nos mostra esse estado de “solitude” de Jesus.
Essa atitude, embora voluntária, não é fácil de experienciar, pois nem todos conseguem ficar sozinhos ou suportar o silêncio e a desconexão temporária com outras pessoas. O silêncio, o “estar só”, causa medo, pavor em muita gente. Há quem só consiga dormir com o barulho da televisão; quem só estuda ouvindo música, sempre usando recursos que quebrem o silêncio, algo que lhe faça companhia, evitando a sensação de estar sozinho.
A prática da meditação, por exemplo, é um desafio atual e dificílima de executar. Até mesmo a leitura de um livro, o sentar-se para ouvir música, fazer orações, ler esse texto até seu final sem perder a concentração, tudo parece ser uma atividade de um maratonista, de alpinista ou atleta de alto rendimento. As pessoas estão sempre com pressa, sempre atrasadas, como o “Coelho Branco” de Alice no País das Maravilhas.
Será que você é uma “doce companhia” para si mesmo? Você se sente bem quando o seu “eu” conversa com ele mesmo?
Schopenhauer disse que “para muitos é mais fácil suportar o outro do que a si próprio”. Por isso muita gente tem medo do silêncio e de ficar sozinho.
Suportar-se é o primeiro desafio da “solitude”, pois implica autoconhecimento e aceitação de si mesmo. Por outro lado, paradoxalmente, a “solitude” – saber e conseguir ficar sozinho – é condição para atingir o autoconhecimento. Se você não é uma boa companhia para si mesmo, imagina se será boa companhia para os outros.
O que acontece é que, para ser “boa companhia para os outros”, usamos uma “máscara”, a persona que representamos como adequação para aceitação social do nosso “eu”. Nas nossas relações sociais, no trabalho, entre amigos, na Igreja, quase nunca somos nós verdadeiramente presentes, mas nossa persona que nos representa.
Certo dia um sobrinho me viu de paletó e gravata, numa entrevista na televisão. Dirigindo-se para a mãe dele disse: “mãe, quem vê o tio Públio falando assim, não sabe que ele é um poço de alegria”. Na TV, de paletó e gravata, uma representação daquilo que em casa, no meio dos familiares realmente sou. É a persona adequando socialmente nosso comportamento.
Nesse contexto, “solitude” é uma espécie do gênero solidão: uma solidão que não machuca, entristece, angustia, deprime ou causa pânico. Uma solidão benéfica para quem consegue alcançá-la.
Nessa espécie, diferentemente da solidão involuntária e de abandono, não acontece o isolamento e desconexão completa com outras pessoas.
O psicanalista francês Philippe La Sagna afirma que a solidão (solitude) difere do isolamento porque não implica uma “exclusão” do “outro”, mas uma “separação” com uma fronteira comum, onde podem transitar; ao passo que o isolamento é um grande muro que impede essa interação. Quando esse “muro” se constrói, a solidão destrói.
No “estado de solitude”, estamos nessa condição fronteiriça, onde podemos transitar e interagir socialmente, pois não existem barreiras físicas nem emocionais, mas uma opção temporária de “retiro social”, de colocar a vida no “modo pausar”. É fazer uma visita à solidão, “tomar um chá” com ela e, depois, se reconectar socialmente. Como diz o poeta Josh Billings, “Solidão é um lugar bom de visitar uma vez ou outra, mas ruim de adotar como morada.”
Os mais velhos tendem a fazer isso com maior frequência. É natural que, com a idade, prefiramos ambientes calmos, sem muita gente e barulho. Frequentemente, preferimos ficar em casa a encarar uma multidão. Porém, não basta ficar sozinho, é preciso estar na companhia do seu “eu” e dialogar com ele.
Gênios e mentes brilhantes como Einstein, Tesla, Newton, Beethoven, Vivaldi, Schopenhauer, Nietzsche, dentre tantos, procuraram a solidão como retiro para a criatividade.
É nesse sentido que Nietzsche afirma que a solidão não é um estado a lamentar, mas uma condição essencial e um privilégio para o “indivíduo superior”, vista como uma virtude moral e um caminho necessário para a autodescoberta, a liberdade e a criação de novos valores, afastada das “moscas do mercado” e da “moral do rebanho”, ou seja, longe da superficialidade, da trivialidade, da mediocridade e das “fofocas” próprias das multidões.
Para Schopenhauer, assim como para Nietzsche, o homem só é verdadeiramente ele mesmo quando está sozinho, na companhia do seu “eu”, de modo que quem não ama a solidão, não ama a liberdade, pois somente na solidão se é verdadeiramente livre.
Acreditavam que os “espíritos excepcionais”, “indivíduos superiores”, necessitavam da solidão para produzir e criar, pois a sociedade é apenas um grande teatro onde as pessoas, com máscaras, desempenham papéis de encenação e de aparências, vivendo na frivolidade. Nessa senda, Nietzsche diz que “a multidão é um mar onde os espíritos livres se afogam”.
Evidentemente, essa escolha – ou destino, como afirma Schopenhauer –, pode trazer consequências, como depressão, por exemplo, mas que no custo-benefício eles acreditavam ser o melhor caminho. Questionavam como os homens poderiam pensar nas grandes questões da humanidade e do planeta, imersos numa sociedade de pessoas frívolas, superficiais e medíocres.
Contudo, isso não é privilégio de intelectuais, cientistas, filósofos, poetas ou monges, nem é exclusivo de idosos, mas uma atitude acessível a todos. O estilo de vida que somos obrigados a viver nos dias atuais, bombardeados por informações, especialmente na Internet e mídias sociais, colocar a vida no “modo pausar” para um breve descanso ou retiro social se torna uma necessidade existencial psicológica.
É nesse ambiente reservado, próprio para a introspecção, afastado do barulho e dos ruídos da multidão que distraem o pensamento, que o homem pode encontrar o espaço interior essencial para promover e cultivar as ideias mais originais, onde a criatividade floresce. Principalmente, deve olhar para dentro de si, buscando nas “sombras”, no sentido “junguiano”, os arquétipos positivos e negativos do inconsciente, retidos e reprimidos, para seu perfeito autoconhecimento.
Quando Jung afirma que “quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta”, está sinalizando que o mundo exterior, as massas, as multidões, oferecem apenas devaneios, ilusões, opiniões superficiais; por outro lado, olhar para dentro significa despertar, ganhar plena consciência de conteúdos do inconsciente, capazes de nos fazer crescer existencialmente, espiritualmente e psiquicamente. É parte essencial do processo de autoconhecimento e de libertação. É o diálogo entre o “eu” com ele mesmo.
Em apertada síntese, a “solitude” — solidão voluntária e proposital — é vista como um momento de “descanso ou retiro da vida social” e das distrações do mundo, essencial para o amadurecimento, a reconexão com o “eu” interior e, para os que creem, uma oportunidade para profunda comunhão com Deus.
Com a prática, você acaba descobrindo que a solitude é uma doce companhia e dirá ao seu “eu”: “Muito prazer, eu existo”.
** O autor é Procurador de Justiça do MP/AM. Bacharel em Filosofia assíduo estudante de temas teológicos.
Públio Caio
Públio Caio
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