No interior ou na cidade, tem gente que não come com a boca. Come com os olhos!
Quem já participou de um almoço de família no interior do Amazonas sabe que aquilo não é simplesmente uma refeição.
É um acontecimento.
Quando a família se reúne, aparece comida de todo jeito e para todos os gostos. Naquele dia em que a família do Chico Pequeno se juntou, a coisa foi grande.
Na coivara, a fumaça subia devagar, o fogo estalava na lenha e o cheiro da comida se espalhava pelo terreiro, misturando-se ao cheiro gostoso da mata e à brisa que vinha do rio.
Tinha carne, peixe, frango, carne de caça, cozidão e mais uma porção de coisas que a memória do Chico Pequeno já nem conseguia catalogar.
Farinha não podia faltar. E comida, muito menos. Era prato indo, prato vindo, panela destampando, criança correndo, adulto conversando e aquele parente que sempre aparece para dizer:
— Come mais um pouquinho!
E o “pouquinho” geralmente era suficiente para alimentar três pessoas.
Naquele tempo, ninguém falava em dieta, calorias, carboidrato ou essas modernidades todas.
Se falasse, provavelmente alguém responderia:
— Come primeiro. Depois tu pensa nisso.
E assim o almoço foi seguindo. Só que o neto de Chico Pequeno levou a recomendação a sério demais. O menino comeu tanto que parecia estar se preparando para uma viagem de barco de seis meses sem parar em lugar nenhum. Depois do almoço, veio aquela moleza.
O sol estava alto, mas debaixo das mangueiras havia uma sombra tão boa que até o vento parecia falar baixinho. O rio corria ali perto, preguiçoso, enquanto as folhas das árvores balançavam devagar. Chico Pequeno não perdeu tempo.
Atou a rede entre duas mangueiras, deitou, ajeitou a cabeça e decretou:
— Agora eu vou descansar.
E começou a cochilar.
Foi quando ouviu:
— Ai... ai... ai...
Chico Pequeno abriu um olho. Silêncio. Fechou novamente.
— Ai... ai... ai...
Levantou da rede.
— Mas que diabo é isso?
Começou a procurar de onde vinha o gemido. Foi para um lado. Nada. Foi para o outro. Nada.
Até que, debaixo de uma castanheira, avistou o neto sentado no chão, com uma mão na barriga e outra enxugando as lágrimas.
— Menino! O que foi?
O garoto não respondeu.
— Fala! Onde dói?
Nada.
— Tu caiu? Foi picado por alguma coisa?
O menino continuava gemendo.
— Ai, vô... minha barriga...
Chico Pequeno olhou para ele. Depois olhou para a mesa onde tinha acontecido o almoço. Depois olhou novamente para o menino. E descobriu o mistério.
— Ahhh! Já sei!
— O que foi, vô?
— Foi comida!
O menino fez que sim.
— Acho que comi demais…
Chico Pequeno colocou as mãos na cintura.
— Demais?! Seu esgalamido! Tu não comeu demais, não. Tu fez foi um recenseamento da cozinha!
O menino continuou choramingando.
— Tu não pode ver comida que come pelos olhos!
— Mas tava bom, vô...
— Eu sei que tava bom! Mas tu queria comer até o prato!
Chico Pequeno foi até o mato, apanhou algumas folhas e voltou.
— Espera aí. Vou fazer um chá de boldo. Isso passa esse mal-estar.
Preparou o chá e entregou ao menino. O garoto pegou a caneca, cheirou, fez uma careta e ficou pensativo. Depois chamou:
— Vô...
— Que foi agora?
— Esse chá vem com bolacha?
Chico Pequeno ficou olhando para o menino. Por alguns segundos, não disse nada. Até que respondeu:
— Bolacha?!
O menino confirmou.
— Meu filho, tu acabou de comer carne, peixe, frango, caça, cozidão e sabe Deus mais o quê... tua barriga já tá parecendo uma canoa carregada até a borda... e tu ainda quer bolacha?!
— Só duas, vô...
Chico Pequeno levantou os olhos para o céu. Até parece que pediu ajuda aos santos. Mas não adiantou. O menino continuava olhando para ele com aquela cara de quem ainda tinha esperança.
Chico Pequeno então concluiu:
— É por isso que eu digo: tem gente que não tem fome. Tem é vocação para comer!
E hoje, mudou alguma coisa?
Mudou.
Hoje, em Manaus, talvez a família já não se reúna sempre em volta de uma mesa de madeira na beira do rio. A coivara deu lugar ao quintal, à churrasqueira, à cozinha apertada do apartamento ou àquela varanda onde cabe todo mundo — desde que ninguém leve um amigo de última hora.
A rede muitas vezes foi substituída pelo sofá.
A sombra da mangueira virou ventilador, ar-condicionado ou aquela cadeira colocada estrategicamente na frente da janela. Mas uma coisa continua exatamente igual:
a comida.
Ainda tem família que se reúne no domingo e prepara uma verdadeira operação de guerra gastronômica. Tem peixe, carne, frango, macarrão, arroz, farofa, salada, vatapá, maionese, sobremesa...
E sempre aparece alguém perguntando:
— Já tá pronto?
Mal termina o almoço e vem outra pergunta:
— Tem sobremesa?
E quando alguém diz:
— Não aguenta mais!
Sempre aparece outro amazonense com a frase fatal:
— Come só mais um pouquinho...
É aí que mora o perigo. Porque o “só mais um pouquinho” do amazonense pode ser mais um prato inteiro. E talvez seja por isso que o neto de Chico Pequeno continue existindo por aí.
Pode estar em Manaus, sentado no sofá depois do almoço, segurando a barriga e dizendo:
— Ai, meu Deus... acho que comi demais.
E alguém da família, certamente, vai perguntar:
— Quer um chá de boldo?
E ele, mesmo com a barriga pedindo socorro, provavelmente vai olhar para a mesa e perguntar:
— Mas... tem bolacha?
Porque algumas coisas mudam com o tempo.
A comida muda.
A casa muda.
A rede muda de lugar.
Mas o esgalamido continua sendo o mesmo.
E no Amazonas, graças a Deus, almoço de família ainda é coisa séria.
Silvia Simões
Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]
Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados nesta coluna não refletem necessariamente o pensamento do Portal do Holanda, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.
Aviso