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Silvia Simões

Chico Pequeno chá de boldo com bolacha

Silvia Simões
Por Silvia Simões
30/09/2026 11h29 — em Silvia Simões

No interior ou na cidade, tem gente que não come com a boca. Come com os olhos!

Quem já participou de um almoço de família no interior do Amazonas sabe que aquilo não é simplesmente uma refeição.

É um acontecimento.

Quando a família se reúne, aparece comida de todo jeito e para todos os gostos. Naquele dia em que a família do Chico Pequeno se juntou, a coisa foi grande.

Na coivara, a fumaça subia devagar, o fogo estalava na lenha e o cheiro da comida se espalhava pelo terreiro, misturando-se ao cheiro gostoso da mata e à brisa que vinha do rio.

Tinha carne, peixe, frango, carne de caça, cozidão e mais uma porção de coisas que a memória do Chico Pequeno já nem conseguia catalogar.

Farinha não podia faltar. E comida, muito menos. Era prato indo, prato vindo, panela destampando, criança correndo, adulto conversando e aquele parente que sempre aparece para dizer:

— Come mais um pouquinho!

E o “pouquinho” geralmente era suficiente para alimentar três pessoas.

Naquele tempo, ninguém falava em dieta, calorias, carboidrato ou essas modernidades todas.

Se falasse, provavelmente alguém responderia:

— Come primeiro. Depois tu pensa nisso.

E assim o almoço foi seguindo. Só que o neto de Chico Pequeno levou a recomendação a sério demais. O menino comeu tanto que parecia estar se preparando para uma viagem de barco de seis meses sem parar em lugar nenhum. Depois do almoço, veio aquela moleza.

O sol estava alto, mas debaixo das mangueiras havia uma sombra tão boa que até o vento parecia falar baixinho. O rio corria ali perto, preguiçoso, enquanto as folhas das árvores balançavam devagar. Chico Pequeno não perdeu tempo.

Atou a rede entre duas mangueiras, deitou, ajeitou a cabeça e decretou:

— Agora eu vou descansar.

E começou a cochilar.

Foi quando ouviu:

— Ai... ai... ai...

Chico Pequeno abriu um olho. Silêncio. Fechou novamente.

— Ai... ai... ai...

Levantou da rede.

— Mas que diabo é isso?

Começou a procurar de onde vinha o gemido. Foi para um lado. Nada. Foi para o outro. Nada.

Até que, debaixo de uma castanheira, avistou o neto sentado no chão, com uma mão na barriga e outra enxugando as lágrimas.

— Menino! O que foi?

O garoto não respondeu.

— Fala! Onde dói?

Nada.

— Tu caiu? Foi picado por alguma coisa?

O menino continuava gemendo.

— Ai, vô... minha barriga...

Chico Pequeno olhou para ele. Depois olhou para a mesa onde tinha acontecido o almoço. Depois olhou novamente para o menino. E descobriu o mistério.

— Ahhh! Já sei!

— O que foi, vô?

— Foi comida!

O menino fez que sim.

— Acho que comi demais…

Chico Pequeno colocou as mãos na cintura.

— Demais?! Seu esgalamido! Tu não comeu demais, não. Tu fez foi um recenseamento da cozinha!

O menino continuou choramingando.

— Tu não pode ver comida que come pelos olhos!

— Mas tava bom, vô...

— Eu sei que tava bom! Mas tu queria comer até o prato!

Chico Pequeno foi até o mato, apanhou algumas folhas e voltou.

— Espera aí. Vou fazer um chá de boldo. Isso passa esse mal-estar.

Preparou o chá e entregou ao menino. O garoto pegou a caneca, cheirou, fez uma careta e ficou pensativo. Depois chamou:

— Vô...

— Que foi agora?

— Esse chá vem com bolacha?

Chico Pequeno ficou olhando para o menino. Por alguns segundos, não disse nada. Até que respondeu:

— Bolacha?!

O menino confirmou.

— Meu filho, tu acabou de comer carne, peixe, frango, caça, cozidão e sabe Deus mais o quê... tua barriga já tá parecendo uma canoa carregada até a borda... e tu ainda quer bolacha?!

— Só duas, vô...

Chico Pequeno levantou os olhos para o céu. Até parece que pediu ajuda aos santos. Mas não adiantou. O menino continuava olhando para ele com aquela cara de quem ainda tinha esperança.

Chico Pequeno então concluiu:

— É por isso que eu digo: tem gente que não tem fome. Tem é vocação para comer!

E hoje, mudou alguma coisa?

Mudou.

Hoje, em Manaus, talvez a família já não se reúna sempre em volta de uma mesa de madeira na beira do rio. A coivara deu lugar ao quintal, à churrasqueira, à cozinha apertada do apartamento ou àquela varanda onde cabe todo mundo — desde que ninguém leve um amigo de última hora.

A rede muitas vezes foi substituída pelo sofá.

A sombra da mangueira virou ventilador, ar-condicionado ou aquela cadeira colocada estrategicamente na frente da janela. Mas uma coisa continua exatamente igual:

a comida.

Ainda tem família que se reúne no domingo e prepara uma verdadeira operação de guerra gastronômica. Tem peixe, carne, frango, macarrão, arroz, farofa, salada, vatapá, maionese, sobremesa...

E sempre aparece alguém perguntando:

— Já tá pronto?

Mal termina o almoço e vem outra pergunta:

— Tem sobremesa?

E quando alguém diz:

— Não aguenta mais!

Sempre aparece outro amazonense com a frase fatal:

— Come só mais um pouquinho...

É aí que mora o perigo. Porque o “só mais um pouquinho” do amazonense pode ser mais um prato inteiro. E talvez seja por isso que o neto de Chico Pequeno continue existindo por aí.

Pode estar em Manaus, sentado no sofá depois do almoço, segurando a barriga e dizendo:

— Ai, meu Deus... acho que comi demais.

E alguém da família, certamente, vai perguntar:

— Quer um chá de boldo?

E ele, mesmo com a barriga pedindo socorro, provavelmente vai olhar para a mesa e perguntar:

— Mas... tem bolacha?

Porque algumas coisas mudam com o tempo.

A comida muda.

A casa muda.

A rede muda de lugar.

Mas o esgalamido continua sendo o mesmo.

E no Amazonas, graças a Deus, almoço de família ainda é coisa séria.

Silvia Simões

Silvia Simões

Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]

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