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Silvia Simões

Matinta-pereira: Quando a cidade resolve entrar na floresta

Silvia Simões
Por Silvia Simões
28/09/2026 11h01 — em Silvia Simões

Tem assobio que vem da mata. Outros vêm de dentro da gente.

Em Manaus, quase ninguém mais presta atenção nos sons da noite.

É buzina. Motor de motocicleta. Ônibus passando. Carro acelerando. Celular vibrando. Notificação chegando. Gente falando alto. Televisão ligada.

E, no meio dessa confusão toda, quem teria tempo para ouvir um simples assobio?

Pois foi justamente essa pergunta que Chico Pequeno, um velho amazonense de fala mansa e memória comprida, fez certa noite:

— Vocês estão ouvindo?

Ninguém respondeu. Estavam todos ocupados demais.

Chico Pequeno apontou para o escuro.

— A Matinta chegou.

Todo mundo riu.

— Que Matinta, Chico?

O velho não riu.

— Aquela que assobia quando ninguém está esperando.

A conversa morreu.

Chico Pequeno conhecia histórias que muita gente da cidade já havia esquecido.

Dizia que a Matinta-Pereira não precisava morar no meio da mata.

A floresta, para ela, não terminava onde começava o asfalto.

— A cidade cresceu, mas a floresta não foi embora, dizia ele.

E naquela noite parecia que alguma coisa queria provar que o velho tinha razão.

Era quase meia-noite. O calor ainda estava preso nas paredes das casas. O ar parecia pesado. A rua estava mais silenciosa. Até os cachorros haviam parado de latir. Foi então que aconteceu.

Fiiiiiiiiiiiiiiiii...

Um assobio comprido atravessou a noite. Todo mundo ficou quieto.

— Deve ser alguém brincando — disse um rapaz.

Chico Pequeno balançou a cabeça.

— Não.

Outro assobio.

Mais perto.

Fiiiiiiiiiiiiiiiii...

Dessa vez, veio do outro lado da rua. Uma senhora fechou a janela. Um cachorro começou a rosnar.

Um homem pegou o celular para gravar.

— Vou descobrir quem está fazendo isso.

Chico Pequeno segurou o braço dele.

— Não faça isso.

— Por quê?

O velho respondeu baixinho:

— Porque se for ela, é melhor não saber onde está.

O rapaz riu. Levantou o celular. Começou a caminhar. A rua estava vazia.

Só havia a iluminação amarelada dos postes e algumas sombras projetadas nas paredes. Ele caminhou mais alguns metros. Nada. Olhou para trás. Ninguém.

Foi quando ouviu:

Fiiiiiiiiiiiiiiiii...

Atrás dele. Virou rapidamente. Nada. O celular começou a perder sinal. Uma barra.

Depois nenhuma. A tela apagou. Ele tentou ligar novamente. Nada.

Então veio um terceiro assobio. Mas aquele não parecia vir da rua.

Parecia vir de dentro do mato.

O problema é que não havia mata ali. Pelo menos era o que ele pensava. Entre duas casas, havia um terreno abandonado. E naquele terreno, escondida pela escuridão, a vegetação havia tomado conta de tudo. Mato alto. Bananeiras. Cipós. Árvores pequenas. E, por trás delas, uma escuridão que parecia muito maior do que o tamanho daquele terreno permitia.O rapaz deu um passo para trás. Foi quando viu uma coisa branca entre as folhas. Uma figura. Parada. Observando. Ele não conseguiu distinguir o rosto. Só percebeu os cabelos compridos.

E ouviu uma voz:

— Me dá um cigarro...

O rapaz correu. Correu como nunca havia corrido. Chegou à casa de Chico Pequeno quase sem respirar.

— Eu vi!

O velho ficou olhando para ele.

— O quê?

— A mulher!

Chico Pequeno suspirou.

— Então agora ela já sabe que você viu.

Naquela noite ninguém dormiu direito. De madrugada, os assobios voltaram. Só que dessa vez não vinham do terreno. Vinham de diferentes pontos da cidade. Primeiro de uma rua. Depois de outra. Depois de muito longe. E, por alguns segundos, parecia que Manaus inteira estava cercada por aquele som.

Fiiiiiiiiiiiiiiiii...

Chico Pequeno permaneceu sentado na varanda.

Sem celular. Sem televisão. Sem rádio. Apenas escutando.

Alguém perguntou:

— Chico, você não está com medo?

O velho demorou a responder.

— Da Matinta, não.

— Então de quê?

Ele olhou para a escuridão.

— Tenho medo é de vocês terem esquecido como se escuta a floresta.

Ninguém entendeu.

Chico Pequeno continuou:

— Vocês colocaram asfalto onde antes havia caminho de barro. Construíram casas onde havia mata. Encheram a noite de luz, motor e barulho. Acham que a floresta ficou longe.

Ele apontou para o escuro.

— Mas ela continua aqui.

Um silêncio tomou conta da varanda. Então veio outro assobio.

Dessa vez...

bem atrás deles.

Ninguém teve coragem de virar. Chico Pequeno apenas fechou os olhos.

E sorriu.

— Agora ela está perto.

— Quem?

O velho respondeu:

— A Matinta.

Todos ficaram imóveis.

E então ouviram uma voz feminina, baixinha, quase um sussurro:

— Chico Pequeno...

O velho abriu os olhos. Seu sorriso desapareceu. Porque havia uma coisa que ninguém naquela casa sabia.

A Matinta nunca havia chamado Chico Pequeno pelo nome.

Nunca. E naquela noite chamou três vezes.

— Chico Pequeno...

— Chico Pequeno...

— Chico Pequeno...

O velho levantou devagar.

Foi até a porta.

Antes de abrir, olhou para todos e disse:

— Se amanhã alguém perguntar o que aconteceu aqui, digam que foi o vento.

— E se perguntarem pela senhora?

Chico Pequeno ficou em silêncio.

Depois respondeu:

— Não digam que viram.

Abriu a porta.

Do lado de fora não havia ninguém.

Apenas a rua.

O calor.

O silêncio.

E, lá longe, onde a cidade encontrava a mata...

um último assobio.

Fiiiiiiiiiiiiiiiii...

Chico Pequeno fechou a porta.

E, pela primeira vez naquela noite, ficou realmente assustado.

Porque ele sabia uma coisa que os outros ainda não tinham percebido:

a Matinta não estava na floresta.

A floresta é que estava começando a entrar na cidade.

Silvia Simões

Silvia Simões

Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]

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