O título Rosebush Pruning pode, à primeira vista, provocar estranhamento. Mas a expressão, que pode ser traduzida ao pé da letra como "a poda da roseira", é explicada logo nos primeiros minutos do filme pelo narrador Ed, personagem de Callum Turner: famílias são como roseiras - logo, também precisam de poda.
No longa dirigido por Karim Aïnouz, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 15, Ed é um dos quatro filhos de uma família de ricaços, sob o jugo do patriarca (Tracy Letts). A mãe (Pamela Anderson) está morta, e Ed e os irmãos Jack (Jamie Bell), Anna (Riley Keough) e Robert (Lukas Gage) cresceram em meio a uma dinâmica problemática (para dizer o mínimo), não se tornando adultos plenamente funcionais.
"Eles vivem de maneira tão privilegiada, tão isoladamente que parece que não viraram adultos", diz ao Estadão Aïnouz, que rejeita o termo "disfuncional" para falar das relações entre seus protagonistas. "A família é fraturada; 'disfuncional' é um juízo de valor. (...) São personagens totalmente quebrados."
Quando Jack começa a namorar Martha (Elle Fanning), a frágil ordem familiar é posta à prova, e a situação ganha contornos cada vez mais perturbadores na sátira comandada pelo cineasta brasileiro a partir de um roteiro do grego Efthimis Filippou, conhecido por ter colaborado com Yorgos Lanthimos em produções como Dente Canino e O Lagosta.
É um território novo para Aïnouz, conhecido por obras repletas de emoção como A Vida Invisível e O Céu de Suely. "É muito inédito na minha cinematografia, como realizador, mas algo que eu tenho muito na minha vida privada, no meu cotidiano, o humor. Principalmente sendo brasileiro, a gente tem uma capacidade de rir de coisas um tanto absurdas."
Diretor e roteirista foram apresentados por meio de um produtor, resultando em uma união proveitosa. "Foi muito bonita a maneira como ele [Filippou] trouxe a questão do absurdo e da sátira, do riso sobre situações de que não necessariamente queremos rir, que é um riso desconfortável. E acho que, do meu lado, o que eu trouxe foi fazer uma sátira com [personagens de] carne e osso", completa o cineasta.
Para ele, era importante que os protagonistas fossem interpretados de forma humanizada, o que influenciou também a escolha do elenco. "São atores que disseram: 'não necessariamente são personagens dos quais eu gostaria de ser amigo, mas eu não acho que são personagens odiosos'. São personagens que são frutos de uma situação."
Os super-ricos e os absurdos
Rosebush Pruning, que estreou mundialmente no Festival de Berlim e passou pelo Festival do Rio e pelo Open Air antes de chegar às salas, se encaixa na crescente tendência de obras que tiram sarro dos ricos, como The White Lotus, Saltburn, Succession e Triângulo da Tristeza. Aïnouz se interessou por esse universo na pandemia, que evidenciou ainda mais certas desigualdades. "Pensei: 'A gente não está indo para um lugar bom'", recorda, antes de refletir sobre o que tornou essas figuras tão prevalentes no zeitgeist.
"Estamos sempre escrevendo coisas sobre coisas que nos assombram, sobre coisas que nos encantam. É muito assustador você pensar que tem seres humanos que detêm mais dinheiro do que dezenas de países, né? Com as redes sociais, a gente sabe como é o iate do Jeff Bezos, como é a casa do Elon Musk. Acho que é por isso que as narrativas refletem um pouco o nosso assombro com relação a isso. E é um assombro que é quase ético; como alguém pode ter tanto dinheiro para ser tão rico durante dezenas de gerações?"
O dinheiro traz, a seu lado, o poder - e implicações que, na história, são personificadas na figura do pai. "Eu acho que o acúmulo de capital gera abuso de poder, e abuso de poder é muito próximo do fascismo, né? Então, nesse sentido, é um filme que parte desse meu espanto/fascínio pelo lugar em que a gente tá entrando no mundo. Mas sempre pensando que não é uma tese de doutorado. É um filme, então ele tem que ser divertido, instigante, bonito", diz Aïnouz. "A gente só consegue ver a sombra se a gente pintar o claro."
E como retratar o absurdo em um mundo no qual os noticiários parecem ter superado a ficção? "A gente está com uma certa familiaridade com o absurdo. Então talvez a gente tenha uma relação mais natural com ele [nos cinemas] do que há dez anos", opina. "gente consegue rir de algumas coisas que antes não tínhamos."
Mas parte desses risos, nota, vem também de um desconforto. "Quando você vê uma situação de que, na verdade, você não deve rir, mas ela é tão absurda que te desperta o riso, isso me interessa muito. Acho que é um jeito também de se engajar com aquilo com que o público está se acostumando, mas sem nunca naturalizar as coisas."
Rosebush Pruning está em cartaz nos cinemas.
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