O debate sobre o fim da escala 6x1 voltou ao centro das discussões no setor produtivo brasileiro após a tramitação do Projeto de Lei nº 1.838/2026, que propõe a redução da jornada semanal para 40 horas e a garantia de dois dias consecutivos de descanso remunerado sem redução salarial. A proposta, apresentada pelo Poder Executivo e ainda em análise no Congresso Nacional, reacendeu preocupações entre empresários e especialistas sobre os impactos jurídicos, operacionais e econômicos da possível mudança nas relações de trabalho.
Embora a discussão seja frequentemente associada à melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, representantes do setor empresarial alertam para os desafios práticos da implementação. “É uma discussão legítima e importante, mas que precisa ser conduzida com responsabilidade e planejamento. Muitos setores operam em regime contínuo, dependem de atendimento presencial e trabalham com estruturas enxutas”, afirma o advogado empresarial Sérgio Rodrigo Russo Vieira, sócio-fundador do escritório Sérgio Vieira Advogados. Segundo ele, uma alteração dessa dimensão exige “transição adequada, segurança jurídica e diálogo com os setores produtivos para evitar impactos abruptos na operação das empresas e no próprio consumidor”.

Os reflexos da eventual mudança tendem a atingir principalmente setores que dependem de funcionamento contínuo, como indústria, comércio, supermercados, farmácias, restaurantes, hotéis e shopping centers. Na prática, empresas poderão ter de rever escalas de trabalho, redistribuir equipes, ampliar contratações, ajustar bancos de horas e renegociar convenções coletivas. A advogada trabalhista Qdma Christina Lourenço Barros avalia que pequenas e médias empresas podem enfrentar dificuldades ainda maiores no processo de adaptação. “Grandes empresas normalmente possuem maior capacidade de absorver custos e reorganizar operações. Já pequenos empresários muitas vezes atuam com equipes reduzidas e margens limitadas”, explica. “Em alguns casos, a mudança pode exigir novas contratações ou redução de horários de funcionamento sem aumento proporcional de receita.”
Entidades empresariais também demonstram preocupação com possíveis impactos econômicos da medida. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais possa gerar impacto de R$ 76 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB). Apesar disso, especialistas reconhecem que a proposta pode representar avanços sociais importantes, desde que acompanhada de planejamento e adaptação gradual dos setores mais afetados. “A legislação trabalhista precisa acompanhar as transformações sociais, mas mudanças estruturais exigem previsibilidade. O desafio será encontrar um equilíbrio que preserve direitos, sem comprometer a sustentabilidade das empresas”, conclui Sérgio Vieira.




Aviso