O Ministério Público e a Corregedoria-Geral da Polícia Civil descobriram que o ex-vereador Milton Leite (União Brasil) tem recebido regalias na Cadeia Pública de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, onde está preso há quase um mês sob suspeita de ligação com um esquema do PCC no transporte público da capital. Nesta sexta, 16, promotores do Gaeco (Grupo de Combate ao Crime Organizado) e delegados corregedores fizeram uma blitz na prisão. O celular de um carcereiro foi apreendido por ordem judicial. Milton deverá ser transferido.
O Estadão pediu manifestação da defesa do ex-vereador. O espaço está aberto.
A investigação apura suposto tratamento privilegiado concedido a prisioneiros da Operação Vectura Corrupta, da qual Milton Leite é o alvo principal. Segundo a Promotoria, havia um fluxo incessante de visitantes, muitos deles sem qualquer vínculo familiar com o ex-vereador, completamente destoante das suas condições de custodiado, entre outras regalias incompatíveis com o cárcere.
Milton presidiu a Câmara Municipal de São Paulo por seis anos. Na prisão, ele teria sido agraciado até com um almoço especial regado a vinho.
A varredura na cadeia foi determinada pelo juiz Domicio Whately Pacheco e Silva, da Vara Regional das Garantias de Guarulhos. As buscas foram acompanhadas de efetivos da Polícia Militar e da Polícia Penal e com emprego de cães de faro. Ao todo, o juiz expediu três mandados de busca e apreensão, incluindo o endereço residencial do carcereiro Jaércio da Cunha Braga, as dependências do 1º Distrito Policial e a cadeia de Mogi.
O Estadão apurou que há cerca de duas semanas foi instalada uma câmera de vídeo em frente à cadeia de Mogi para monitoramento do local. Segundo os investigadores, os fatos podem configurar os crimes de corrupção passiva, corrupção ativa e prevaricação.
Relatório Técnico de Análise Preliminar indica que a investigação teve origem em notícia anônima encaminhada por correio eletrônico ao Gaeco. Segundo a notícia, Milton Leite estaria recebendo visitas de políticos e amigos fora dos dias e horários permitidos, inclusive à noite e aos finais de semana, além de outras regalias.
Tudo seria facilitado pelo carcereiro conhecido como Braga. Foram realizadas diligências de campo com o apoio de policiais disfarçados nos dias 8 e 9 de outubro. Com as primeiras descobertas, a Promotoria instaurou Procedimento Investigatório Criminal (PIC)
Os levantamentos mostram que Milton Leite se apresentou à Polícia Civil em Mogi das Cruzes em 18 de setembro de 2026. Na Operação Vectura Corrupta, o ex-vereador foi alvo de mandado de prisão temporária, pelo prazo de 30 dias - nesta quinta, 15, o prazo de prisão foi prorrogado por mais 30 dias.
Milton depôs também nesta quinta no inquérito que o investiga por suspeita de elo com o PCC. "Não integro, não financio, não apoio, não tenho ligação com o PCC", ele afirmou.
Veículos de ré
A investigação sobre privilégios ao ex-vereador na prisão mostra que no dia 8 passado, uma quinta-feira, uma caminhonete GM Montana ingressou de ré no estacionamento da delegacia, que fica parede a parede com a cadeia, em manobra compatível com a entrega de objetos, ali permanecendo por curto intervalo. O veículo pertence à Construtora Incorporadora e Comércio Neumax Ltda., sociedade integrada por Milton, sua mulher e seus filhos.
Entre os ocupantes do veículo estava um advogado. Um outro automóvel, Lexus CT200H, registrado em nome de outro advogado, também ingressou nas dependências da delegacia. No mesmo dia, segundo o relatório, compareceram ao local o deputado estadual Milton Leite da Silva Filho, filho do ex-vereador, a bordo de um carro locado, e o prefeito de um município da região, que ocupava uma caminhonete Ford Ranger, registrada em nome de um parlamentar federal.
Ao autorizar as buscas nesta sexta, 16, o juiz Domicio Whately Pacheco e Silva destacou que o 1º Distrito Policial e a Cadeia Pública de Mogi compartilham endereço e administração. "Foi no interior de ambos que se registrou o ingresso de veículos e a condução do custodiado (Milton Leite) à área de acesso restrito. É ali que se encontram, com probabilidade, os registros de visitas e de acesso, às normas internas, às escalas de serviço, os documentos da custódia de Milton Leite e os equipamentos de videomonitoramento."
O juiz mandou fazer uma vistoria na cela e nos pertences do ex-vereador. A suspeita é que o ingresso de veículos em manobras compatíveis com a entrega de objetos indicam a possibilidade de entrada de aparelhos de comunicação e de outros bens cuja posse não é permitida.
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