Poucas frutas do mundo carregam tanta vitamina C quanto o camu-camu, um arbustinho de várzea que cresce nas beiras de rios e lagos da Amazônia e passa boa parte do ano com os pés dentro d'água. As medições feitas em bancos de germoplasma na região Norte mostram uma variação enorme conforme a procedência da planta e o ponto de maturação do fruto: os números vão de cerca de 850 miligramas a mais de 6 mil miligramas de vitamina C a cada 100 gramas de polpa. Para efeito de comparação, uma laranja média fica na casa de algumas dezenas de miligramas. Essa faixa tão larga é justamente o que mantém o camu-camu no radar de pesquisadores que estudam seleção de plantas mais produtivas.
O fruto é pequeno, arredondado e fica avermelhado ou quase roxo quando maduro. A floração mais forte acontece entre dezembro e fevereiro, e a colheita se concentra de março a maio, período em que a planta convive com a cheia dos rios. Nas comunidades ribeirinhas, historicamente o camu-camu foi pouco aproveitado como alimento: virava tira-gosto ocasional ou isca de pesca. O consumo em escala maior só ganhou corpo quando a polpa passou a ser transformada em suco, sorvete, geleia, licor e doces.
A explicação para o pouco consumo do fruto puro está na acidez. Análises registram pH entre 2,3 e 3,5 e acidez titulável na faixa de 2,4% a 4,4%, o que torna a polpa praticamente impossível de comer sem diluição. Na prática, isso significa que o camu-camu quase sempre chega à mesa já misturado com água e adoçado — e que parte da vitamina C se perde no processamento, no calor e na exposição à luz. Quem tem gastrite, refluxo ou sensibilidade dentária costuma sentir desconforto com preparações muito concentradas, e o excesso de vitamina C está associado a maior eliminação de oxalato pela urina, algo que pede cautela em quem já teve cálculo renal.
Vale separar o que está medido do que é promessa. Existe base sólida para dizer que o camu-camu é uma das fontes naturais mais concentradas de vitamina C conhecidas e que o fruto tem compostos com ação antioxidante. Não existe base para tratá-lo como remédio: nenhum alimento cura doença, substitui tratamento ou dispensa acompanhamento profissional. Suplementos e cápsulas com extrato concentrado, em especial, não devem ser usados por conta própria — quem tem doença renal, faz uso contínuo de medicamentos ou está grávida deve conversar com médico ou nutricionista antes.



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