A castanha-do-brasil é a fonte alimentar mais concentrada de selênio que se conhece, mas quase ninguém avisa que essa concentração muda radicalmente conforme o lugar onde a árvore cresceu. Pesquisas da Embrapa com amêndoas colhidas em diferentes castanhais da Amazônia encontraram de 11 a 98 miligramas de selênio por quilo nas castanhas do Amazonas — o maior teor medido no país. Na prática, uma única amêndoa amazonense entrega, em média, cerca de 186 microgramas do mineral. A ingestão diária recomendada pela Anvisa para adultos é de 34 microgramas, e a referência internacional mais usada em estudos fica em 55. No Acre, onde o solo é diferente, o teor cai para algo entre 0,5 e 2 miligramas por quilo: seriam necessárias cerca de onze castanhas para chegar ao mesmo ponto.
Essa variação tem uma consequência prática que a receita popular de "coma duas castanhas por dia" ignora. O limite superior considerado seguro para o consumo contínuo de selênio é de 400 microgramas diários. Um levantamento que reuniu dezenas de análises publicadas sobre a castanha calculou que cerca de 5% das amêndoas contêm, sozinhas, mais do que esse limite — enquanto outro quarto delas não chega nem à recomendação mínima. O excesso prolongado de selênio pode provocar queda de cabelo, unhas quebradiças, gosto metálico, hálito com odor de alho, náusea e alterações neurológicas. É justo registrar que um estudo com 448 moradores de comunidades amazônicas de dieta rica em selênio não encontrou sinais dessa intoxicação, e que os casos graves descritos no mundo estão ligados a suplementos mal formulados, não a castanhas. Ainda assim, comer punhados diários sem qualquer critério não é uma boa ideia.
Sobre o que o selênio faz no corpo, vale separar o que já foi demonstrado do que continua sendo promessa. Ensaios clínicos confirmam que comer castanha eleva o selênio no sangue e aumenta a atividade de uma enzima antioxidante do organismo — isso é sólido. O que não se sustenta é o salto seguinte. Uma revisão de oito ensaios clínicos não encontrou efeito significativo da castanha sobre colesterol total, LDL, HDL ou marcadores de inflamação. Revisões sistemáticas independentes concluíram que a suplementação de selênio não reduz o risco de câncer, com alto grau de certeza, e que chegou a aumentar a ocorrência de diabetes tipo 2 e de problemas de pele; para tireoidite de Hashimoto, a evidência foi classificada como incompleta. Nada disso é receita: quem tem doença diagnosticada, usa medicamento ou suplemento deve conversar com médico ou nutricionista antes de mudar a dieta.
Há ainda um cuidado que não aparece nos rótulos e importa muito no estado que mais produz castanha no país. A amêndoa mal secada é terreno fértil para fungos do gênero Aspergillus , que produzem aflatoxinas — substâncias classificadas como cancerígenas. A norma brasileira tolera no máximo 10 microgramas de aflatoxinas por quilo na castanha descascada pronta para consumo e 20 microgramas na castanha com casca, mas análises de amostras recolhidas em áreas de floresta e em feiras já registraram valores acima de 200. A boa notícia é que o problema é evitável: secar o fruto em até dez dias após a coleta reduz em até 98% a formação dessas toxinas. Na hora de comprar, o critério é simples — castanha seca, firme, sem manchas escuras, sem mofo e sem cheiro de ranço, guardada em recipiente fechado, em lugar fresco, ou na geladeira.



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