Poucas plantas amazônicas são tão fáceis de reconhecer quanto o crajiru. Basta amassar as folhas em água quente para que o líquido ganhe um tom avermelhado intenso — o mesmo pigmento que povos indígenas usam há séculos para pintar o corpo e tingir tecidos. Também chamada de pariri, a trepadeira aparece em quintais de Manaus e do interior do Amazonas, e o costume mais antigo é o chá das folhas, tomado para dores abdominais, diarreia, inflamações e como banho para lavar feridas na pele.
Esse uso tradicional não passou despercebido pelas autoridades de saúde. O crajiru está entre as 71 espécies da relação nacional de plantas medicinais consideradas de interesse para o Sistema Único de Saúde — uma lista que reúne plantas com potencial suficiente para justificar investimento em pesquisa e, eventualmente, virar medicamento fitoterápico. Entrar nessa lista não significa que a planta já tenha eficácia comprovada; significa que vale a pena estudá-la a fundo. As análises químicas identificaram como marcadores do crajiru as 3-desoxiantocianidinas, os pigmentos responsáveis justamente pelo vermelho característico, além de outros flavonoides.
Nos laboratórios, os resultados mais consistentes até agora apontam para cicatrização e ação anti-inflamatória. Extratos da folha aceleraram o fechamento de feridas em modelos experimentais e reduziram inchaço provocado por venenos de serpentes amazônicas. Pesquisadores de universidades brasileiras desenvolveram um gel de uso bucal a partir do extrato rico nesses pigmentos, testado em pacientes oncológicos que sofrem com feridas na boca causadas por quimioterapia e radioterapia, com resultados animadores na velocidade de cicatrização. Trabalhos acadêmicos no Amazonas também avaliaram efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios do extrato em testes de laboratório.
O que ainda não existe é prova de que o chá caseiro cure doenças graves. Não há estudo clínico que sustente o crajiru como tratamento de câncer, anemia ou inflamações internas, e circulam nas redes promessas que a ciência simplesmente não confirmou. Pesquisas doutorais chegaram a investigar efeitos sobre a pressão arterial e sinais de toxicidade, o que reforça a cautela: consumo prolongado, em grandes quantidades ou por conta própria não é seguro. Gestantes, lactantes, crianças e quem faz uso contínuo de medicamentos devem evitar o uso sem orientação. Nenhuma planta substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico — e abandonar um tratamento em curso para tomar chá é o pior caminho possível.




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