Em 22 de agosto de 1846, a revista literária inglesa The Athenaeum publicou uma carta assinada por um tal de Ambrose Merton. O autor propunha trocar as expressões então usadas para descrever costumes, canções e crenças do povo por um termo novo, montado com duas palavras de raiz saxã: folk-lore , o saber do povo. Ambrose Merton não existia. Era pseudônimo de William John Thoms, antiquário e funcionário do parlamento britânico, cuja autoria só foi revelada pela própria revista no ano seguinte. A palavra pegou, atravessou idiomas e virou disciplina acadêmica.
Foi essa data que o Brasil adotou. O Decreto nº 56.747, assinado em 17 de agosto de 1965 pelo então presidente Humberto de Alencar Castello Branco, determinou que o Dia do Folclore fosse celebrado anualmente em 22 de agosto em todo o território nacional, com atribuição expressa para que escolas de todos os níveis promovessem as comemorações. Daí vem a associação, até hoje forte, entre a data e as atividades escolares de agosto.
No Amazonas, o repertório dispensa apresentação. O boto que vira rapaz de branco nas festas de beira de rio, a Iara que atrai pescadores, o Curupira de pés virados que confunde quem persegue a caça, a Matintaperera anunciada por assobio na madrugada — cada uma dessas figuras funciona como norma de convívio disfarçada de história de assombração, ensinando quando não entrar no mato, quando não sair no rio e o que respeitar. São narrativas orais, transmitidas sem autor e sem data, exatamente o tipo de material que Thoms tentava nomear.
Parte desse acervo já tem reconhecimento formal. Em 8 de novembro de 2018, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional aprovou, por unanimidade, o registro do Complexo Cultural do Boi-Bumbá do Médio Amazonas e Parintins como Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão foi tomada durante a 91ª reunião do colegiado, realizada em Belém, e alcança não apenas o festival de junho na ilha, mas a rede de grupos, mestres e comunidades do médio Amazonas que mantém a brincadeira viva o ano inteiro.



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