Falar da médica Tatiana Sampaio é falar de esperança. Não aquela esperança vazia, retórica, de discurso fácil, mas a esperança construída em laboratório, ao longo de quase três décadas de pesquisa silenciosa, persistente e disciplinada.
Em um país que tantas vezes falha em reconhecer seus cientistas, surge uma mulher que ousa desafiar o que parecia imutável: a irreversibilidade de muitas lesões medulares. A polilaminina, estudada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, não é apenas uma substância derivada da laminina. Ela representa uma ruptura possível na história da medicina regenerativa.
Desde 2019, ela lidera o projeto “Desenvolvimento de um medicamento com base em polilaminina”, iniciativa que marca a transição da pesquisa básica para a aplicação clínica. Esse projeto é realizado em parceria com a farmacêutica Cristália — uma das principais indústrias farmacêuticas nacionais, com forte atuação em pesquisa, desenvolvimento e produção de medicamentos de alta complexidade no Brasil.
Não se trata apenas de cooperação institucional. Trata-se de integração estratégica entre universidade e indústria nacional, algo essencial para transformar descobertas científicas em terapias reais.
Além disso, Tatiana Sampaio coordena o estudo clínico fase 1/2, etapa crucial no desenvolvimento de qualquer medicamento. Nessa fase, o objetivo principal é avaliar a segurança da substância e investigar sua possível eficácia em pacientes com lesão raquimedular aguda. É o momento em que a ciência deixa o ambiente exclusivamente experimental e passa a dialogar diretamente com a realidade clínica, sempre sob protocolos rigorosos e critérios éticos estritos.
Sei que ainda faltam etapas. Sei que a ciência exige revisão por pares, amostras maiores, replicabilidade, comprovação estatística robusta. Sei que prudência é parte do método científico. Mas também sei reconhecer grandeza quando ela se apresenta.
Aplausos são poucos.
O que essa cientista já construiu em termos de dedicação, compromisso e coragem intelectual ultrapassa métricas frias de laboratório. Cada paciente que apresentou melhora, cada família que voltou a ter esperança, cada pessoa que voltou a mover membros antes inertes, tudo isso já é, por si só, um feito histórico.
Tatiana Sampaio não está vendendo ilusões. Está construindo possibilidades. E isso exige coragem. Porque inovar é enfrentar críticas, ceticismo e escrutínio. É caminhar sobre o fio da expectativa pública sem perder o rigor técnico.
Mas há momentos na história em que é preciso reconhecer, ainda em vida, aqueles que dedicam sua existência ao bem coletivo.
Essa mulher já merece uma estátua.
Já merece as mais altas honrarias do Estado brasileiro.
Já merece o reconhecimento público pela contribuição que vem oferecendo à humanidade.
Nós, leigos da ciência, talvez não compreendamos a complexidade molecular da polilaminina. Não dominamos os protocolos experimentais, nem as curvas estatísticas dos ensaios clínicos. Mas compreendemos algo simples e profundo: quando alguém devolve movimento, devolve esperança.
E esperança não tem preço.
Do lado de fora dos laboratórios, nos resta algo igualmente poderoso: rezar, orar, torcer, emanar boas energias para que os testes avancem, para que as evidências se consolidem e para que a cura da paralisia física se imponha com força, fé e ciência.
Se a história confirmar o que os primeiros sinais indicam, estaremos diante de um dos maiores marcos da medicina brasileira.
E quando esse dia chegar, poderemos dizer que tivemos entre nós uma mulher que ousou acreditar, e trabalhar incansavelmente, para que muitos voltassem a andar.
Hissa Abrahão
Hissa Abrahão é economista, professor universitário, mestre, doutorando, ex-deputado federal e vice-prefeito de Manaus.
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