Em 20 de agosto de 1897, num laboratório em Secunderabad, na Índia, o médico britânico Ronald Ross dissecou o estômago de um mosquito do gênero Anopheles — o exemplar que ele anotou no caderno como "mosquito 38" — e encontrou ali os grânulos escuros do parasita causador da malária. Era a primeira prova de que a doença passava de uma pessoa para outra pela picada do inseto, e não pelo "ar ruim dos pântanos", como se acreditava. A descoberta lhe rendeu o Nobel de Medicina em 1902, o primeiro concedido a um britânico, e deu origem ao Dia Mundial do Mosquito, celebrado desde os anos 1930 pela escola de medicina tropical de Londres onde Ross trabalhou.
Nenhum lugar do Brasil tem mais motivos para marcar a data do que a Amazônia. A região responde por mais de 99% dos casos de malária contraídos em território nacional, segundo o Ministério da Saúde. O balanço mais recente, divulgado na semana passada, mostra um cenário em melhora: o país registrou 118.037 casos em 2025, 15% menos que no ano anterior e o menor número desde 1978. As mortes caíram de 56 para 39. Parte do resultado é creditada à adoção da tafenoquina, medicamento tomado em dose única que evita as recaídas típicas da malária causada pelo Plasmodium vivax .
No Amazonas, a curva também aponta para baixo. De janeiro a junho deste ano foram 22.897 casos, contra 27.890 no mesmo período de 2025 — queda de 17,9%, segundo a fundação estadual de vigilância em saúde. O mês de junho concentrou a maior redução, de mais de 29%. Os números, porém, mostram onde a doença resiste: as áreas indígenas respondem por 44,12% dos registros e as zonas rurais por 38,09%, enquanto as áreas urbanas ficam com menos de 8%. Quase nove em cada dez casos são do tipo vivax , e a faixa etária mais atingida é a de 10 a 19 anos.
Vale ainda desfazer duas confusões comuns. Só as fêmeas picam — os machos vivem de néctar e seiva, e elas buscam sangue porque precisam dele para amadurecer os ovos. E nem todo transmissor é mosquito: a febre oropouche, que costuma ser jogada no mesmo balaio do Aedes , é levada pelo maruim, o mosquito-pólvora, um inseto de 1,5 milímetro de outra família, contra o qual os inseticidas domésticos comuns não foram desenvolvidos. Das mais de 3.700 espécies de mosquitos catalogadas no mundo, o principal vetor da malária por aqui é o Anopheles darlingi . Contra ele, pesquisadores de instituições de Manaus testaram no ano passado fungos coletados na própria floresta amazônica, que reduziram a sobrevida dos mosquitos em laboratório — uma pista, ainda inicial, de controle biológico feito com material da região.



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