A sorveira é uma árvore que pode chegar a 20 metros de altura e cresce espalhada pela Amazônia, do alto Rio Negro ao Rio Solimões, passando por municípios como Coari e Borba, além de aparecer cultivada em quintais e sítios de Manaus. Sua fruta, arredondada e de casca fina avermelhada, esconde um suco espesso e branco — o látex — que a torna rara: a sorva é uma das poucas plantas da família das apocináceas cujo látex pode ser consumido como alimento, enquanto a maioria das parentes é conhecida justamente pelo contrário, por acumular substâncias tóxicas ou irritantes.
Na floresta, o costume de beber o látex puro ou misturado ao café vem de gerações de seringueiros, que usavam a bebida como reforço energético durante a jornada de trabalho. Fora do copo, o líquido também entra em receitas de sucos, sorvetes, geleias e até vinagres, e pode substituir o leite de vaca em algumas preparações. Na tradição popular, atribui-se à sorva efeito vermífugo e cicatrizante para feridas leves, e há relatos antigos de indígenas que misturavam o látex à banana para tratar diarreia — usos passados de boca a boca, sem respaldo de estudo clínico.
O que a ciência já testou é mais restrito. Uma dissertação da Universidade Federal do Amazonas isolou do soro do látex da sorva um composto chamado acetato de alfa-amirina e avaliou, em laboratório, sua ação contra sete micro-organismos. O resultado mostrou inibição do crescimento de apenas dois deles — a bactéria Staphylococcus aureus e o fungo Candida albicans — numa concentração específica testada em placa. Não houve, até aqui, teste em animais ou em voluntários humanos, nem qualquer confirmação científica das propriedades vermífuga ou cicatrizante que a tradição atribui à fruta.
A sorva não substitui orientação médica, e o próprio fato de pertencer a uma família botânica que reúne espécies com látex tóxico reforça a importância de conhecer bem a planta antes de consumi-la: a casca e o látex de parentes da sorveira podem causar irritação ou intoxicação se confundidos. Como não existem estudos de segurança sobre o consumo regular do látex em humanos, recomenda-se cautela especialmente para gestantes, crianças pequenas e pessoas com alergia a látex natural, e qualquer sintoma após o consumo deve ser avaliado por um profissional de saúde.
Aviso