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Urucum: a semente que pintava guerreiros indígenas e hoje é testada pela ciência contra inflamação

Usado há séculos como tinta corporal indígena, o urucum é testado em laboratório contra inflamação e glicemia alta, mas ainda sem confirmação em humanos.

Urucum: a semente que pintava guerreiros indígenas e hoje é testada pela ciência contra inflamação
Sementes de urucum (Bixa orellana), usadas tradicionalmente como corante e pintura corporal na Amazônia. Foto: Ailan Knights / Pexels

O urucum ( Bixa orellana ) é uma das plantas mais antigas usadas pelos povos indígenas da América tropical. O nome vem do tupi-guarani "uru'ku", que significa vermelho, enquanto o nome científico homenageia o explorador espanhol Francisco de Orellana, que navegou o rio Amazonas no século 16. Antes da chegada dos colonizadores europeus, indígenas já misturavam a polpa que envolve as sementes com gordura animal ou vegetal para fazer uma tinta usada em pinturas corporais durante rituais de iniciação, danças e festividades. Os astecas, por sua vez, usavam o corante para tingir de vermelho bebidas de cacau, simulando sangue em cerimônias. Hoje, a semente seca e triturada dá origem ao colorau, e o Brasil é o segundo maior produtor mundial da planta, com destaque para o Pará.

Em laboratório, extratos de urucum já mostraram atividade anti-histamínica e anti-inflamatória em testes com células humanas e em ratos, além de efeito antiespasmódico, analgésico e antidiarreico em camundongos. Extratos das folhas e das sementes também tiveram ação antimicrobiana contra bactérias como E. coli e Staphylococcus aureus , e um estudo recente encontrou efeito ainda mais forte quando o composto foi combinado a um antibiótico contra a superbactéria MRSA. Pomadas feitas com o extrato aceleraram o fechamento de feridas em ratos e camundongos, e a bixina, pigmento que dá a cor vermelha à planta, reduziu a glicemia de ratos diabéticos em testes de laboratório.

Até agora, porém, nenhum desses efeitos foi confirmado em testes clínicos com seres humanos — todas as evidências vêm de estudos em laboratório ou em animais, e os próprios pesquisadores apontam que mais pesquisas sobre a segurança da bixina ainda são necessárias antes de qualquer uso medicinal. Por isso, o uso do urucum como remédio não deve substituir orientação médica. A literatura fitoterápica recomenda que o uso contínuo não passe de três meses e aponta contraindicações para gestantes, lactantes, crianças menores de 12 anos e pessoas em tratamento contra o alcoolismo, no caso de formulações com álcool. Diabéticos que usam remédios para controlar a glicemia merecem atenção redobrada, já que a combinação pode causar hipoglicemia, e doses muito altas já mostraram, em animais, efeito purgativo e sinais de toxicidade no fígado.

Fora do campo medicinal, o urucum também é valorizado pela indústria: os carotenoides e tocotrienóis presentes na semente — compostos antioxidantes que protegem a saúde ocular e cardiovascular — são usados hoje em protetores solares, bronzeadores, batons e esmaltes, além de corantes para tecidos. Uma planta que começou como tinta sagrada dos povos originários da Amazônia continua, séculos depois, colorindo a vida de quem nunca imaginou sua origem indígena.

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