A crescente presença de facções em rios, rotas e fronteiras amazônicas talvez tenha revelado uma realidade que sempre existiu, mas não recebeu a devida atenção: o valor estratégico do território.
Se organizações criminosas conseguem perceber esse valor, por que tantas vezes o debate nacional hesita em reconhecê-lo para finalidades legítimas?
A pergunta é desconfortável, mas necessária.
A expansão dessas organizações não ocorreu por acaso. Elas não criaram os rios amazônicos, não abriram as fronteiras internacionais nem definiram a posição geográfica da região. Apenas compreenderam o potencial estratégico de características que sempre estiveram presentes.
O fenômeno revela algo que vai além da segurança pública.
Enquanto as facções passaram a enxergar a Amazônia como território, corredor logístico e espaço de circulação, boa parte do debate permaneceu concentrada principalmente em sua dimensão simbólica. A floresta ocupou o centro das atenções. A governança territorial, nem sempre.
Isso não reduz a importância da proteção ambiental. Preservar continua sendo indispensável.
Proteger não é o mesmo que governar. Governar exige enxergar a Amazônia em toda a sua complexidade: como patrimônio ambiental, mas também como fronteira, infraestrutura, população, soberania e desenvolvimento.
Talvez aí esteja uma das questões centrais do nosso tempo. Enquanto o mundo observa a floresta, quem observa o território? Enquanto se discutem os riscos da ocupação desordenada, quem debate os riscos da ausência de ocupação Estado?
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.



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