O Supremo Tribunal Federal acabou com a "prisão especial” para portadores de diploma de nível superior, mas qualquer juiz poderá fazer uso do recurso se entender que “a integridade física, moral e psicológica do preso provisório é de alguma forma ameaçada”. O adendo é do ministro Edson Fachin e valeria para todos - inclusive para quem não dispõe de diploma. Isso abre uma janela para uma elite com força politica e influência no judiciário.
Ademais, o STF, como sempre jogando para a plateia, manteve o privilégio da prisão especial para senadores, deputados, vereadores, ministros de estado, policiais, ministros do TCU, oficiais das forças armadas, juizes ex-presidentes da República e advogados.
O ministro Alexandre de Moraes, relator da matéria, diz que o atual Código de Processo Penal ao estabelecer o privilégio da prisão especial para portadores de diploma, "materializa a desigualdade e o viés seletivo do direito penal". Ora, mas se muda a lei, o privilégio, embora com restrições, permanece, agora mais seletivo do que nunca, pelo número de categorias beneficiadas.
Mais interessante é a forma como os ministros do STF julgaram o caso. Foi, no geral, a admissão tácita do sistema de justiça de que a prisão especial separa dois mundos - o purgatório e o inferno.
Mais do que abolir a prisão especial para portadores de diploma, a Corte precisa avaliar o tamanho do inferno que são os presídios brasileiros, um mundo à parte, com assassinatos e torturas, onde o poder do estado - vejam o absurdo - termina. Ou as facções criminosas que operam nas grandes cidades, implantando o terror, não seriam comandadas exatamente do que chamamos de "sistema carcerário".
Os 700 mil presos a um custo mensal de R$ 1,9 mil cada um, sem a menor possibilidade de recuperação, são um peso extremo para o País. Mais que isso, expõem um mundo à parte, feito de ódio, revolta, tortura e medo.
Sobre os portões do inferno, o sistema de justiça não avança porque entende que, ao sentenciar, cumpriu seu papel. Que mundo cruel e desumano criamos.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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