Um dia após a descoberta da chacina de quatro pessoas e do envolvimento de policiais militares no episódio, surgiu a versão oficial de que as vítimas tinham passagem pela polícia, que eram ou foram delinquentes. Pareceu uma tentativa tosca de justificar um crime brutal. Depois, revelou-se mais: que os supostos criminosos eram na verdade reincidentes. A maioria dos militares presos respondia na Justiça por homicídio e tortura. O que não explica é por que permaneciam na polícia, embora esclareça, de forma cabal, a tendência (predominante no grupo) de matar.
Em defesa dos policiais, explode na internet a frase “Bandido bom é bandido morto”. A questão é saber quem se enquadra nesse conceito em uma sociedade em que muita “gente boa” pratica delitos em segredo: o empresário contratado pelo Estado para fornecer 1 mil cestas básicas e entrega 500, mas recebe pelas mil; o jornalista que se especializa em extorquir e invade a vida privada de outros cidadãos; o juiz que aceita suborno; o advogado que se apropria dos valores da pensão de uma viúva; o pastor que defende a família e em casa tortura a mulher e os filhos; o político que destina valores de uma emenda parlamentar a uma prefeitura e exige que a metade seja restituída a ele; grupos de interesse que criam privilégios “legais” para uma diminuta parcela do funcionalismo e entregam a conta para o resto da sociedade.
A questão é que, a se admitir a frase “bandido bom é bandido morto", como lógica e aplicável, metade da população iria para o cadafalso.
Então, se a frase se aplica aos jovens mortos; aplica-se aos policiais acusados de cometer a chacina; aplica-se aos que insistem em achar que são os melhores cidadãos, mas cometem o crime da omissão, da defesa da eliminação capital sem julgamento.
Aplica-se aos que aceitam subornos, aos que invadem a vida privada de terceiros para obter lucros, ao político que embolsa parte das emendas destinadas a construção de escolas, ao pastor que humilha a própria família.
Quem é bandido mesmo? E que sociedade estamos construindo, se não conseguimos evoluir, pensar diferente, ser minimamente honestos, humanizar a polícia, criar oportunidades de trabalho e de educação para os jovens? E você, se acha diferente?
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Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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